Há alguns dias visitamos uma das exposições da trienal de arquitetura que está acontecendo aqui em Lisboa até janeiro. O tema desse ano é "Falemos de casa" e a mostra está espalhada por diversos museus da cidade. A parte da qual comentarei agora está no Museu de Arte Moderna e Contemporânea Coleção Berardo.
A trienal faz uma abertura aos diversos campos do saber que atravessam a questão do habitar, uma vez que pensar a casa traz a reflexão sobre a habitação do mundo contemporâneo. Aparecem opiniões desde os que pensam esse habitar e projetam as casas, até aqueles que as habitam. São debatidas soluções encontradas em diversas regiões do globo, entre a dimensão utópica da herança moderna dos Smithsons (1956) com aquilo que seria "a casa do futuro" e do SAAL - Serviço de Apoio Ambulatório Local (1976) , e a contemporaneidade, na qual diversas práticas se constroem e se definem.
A instalação "Casas para o povo" discorre mais especificamente do SAAL, movimento lançado após a Revolução por um grupo de arquitetos que respondia à luta de rua dos moradores pobres. Nesta época, defendeu-se que a classe baixa também tem direito ao centro histórico, onde o velho e o novo coexistem e onde toda a infraestrutura da cidade já está consolidada. No SAAL, os arquitetos se organizaram em brigadas técnicas que trabalhavam por zonas, de forma a apressar a construção, projetando e construindo em terrenos já disponíveis, sem necessidade de processos de expropriação, sempre lentos. Foi então uma proposta alternativa, utópica, uma nova reflexão sobre a cidade que de certa forma respondia ao movimento popular.
Além das demais abordagens da trienal dentro da Coleção Berardo, o Brasil aparece juntamente com a África e Lisboa. Fazendo um paralelismo entre Recife, Luanda e Maputo, a exposição divide-se em 3 partes: a cidade informal/real (as favelas), a cidade formal/sitiada (os condominíos fechados, apresentados aqui como "a miséria arquitetônica e social") e a cidade moderna (mostra a riqueza das propostas modernas hoje ameaçadas pelas novas regras do capitalismo mundial que a pretendem substituir, numa lógica que despreza a sua complexidade tipológica e histórica, deixando-a degradar).
Enfim, interessante de qualquer modo a percepção de uma mostra arquitetônica fora do meu país de origem, embora eu concorde e discorde de algumas "idéias" trazidas. De qualquer forma, essa foi ainda uma parte da trienal, sendo um aspecto positivo a meu ver ela estar espalhada pela cidade, pois de certa forma leva aos interessados se integrarem e vivenciarem mais Lisboa, no percurso até cada instalação.
